Sexta-feira, Dezembro 18, 2009

W.A.

Por Stuart Hample.

Quarta-feira, Dezembro 16, 2009

The "porteiro da noite" issue - vol 2.

Desde que a portaria do prédio entrou em obras que um sofá passou a habitar a garagem, e portanto, sempre esbarro o carro nele. Eu me sentia bastante idiota até perceber que bater o automóvel no sofá apodrecido servia para algo sensacional: acordar o porteiro da noite.

Eu havia dado um desconto na minha implicância com o porteiro da noite porque fazia um tempo ele vinha me chamando pelo diminutivo do meu nome, e era mesmo fofo. Porém tive de voltar atrás quando, numa noite de céu desabotoado, fiquei ao relento.

Funciona assim: com a portaria em obras só há uma entrada possível, a garagem. E com o porteiro da noite dormindo profundamente na madrugada, só há uma alternativa: possuir um controle eletrônico que abra o portão da garagem. Uma vez que o veículo se encontrava indoors, pronto: não houve interfone que acordasse o porteiro da noite, e quase não haveria remédio suficiente para a gripe de uma noite dormida na calçada não fosse uma breve internação no hospital mais próximo.

Curada a pneumonia, me vi diante do impasse: denunciar o porteiro da noite e execrá-lo em praça pública, ou melhor, em reunião de condomínio, ou conseguir medicamentos pesados e ilegais (quiçá uma máquina de café Nespresso) para manter o homem acordado.

Enquanto não tomo a decisão acertada, confesso, fantasio com uma noite abafada, dessas em que gota alguma se aventura por aqui, dessas em que o calor altera qualquer estado de consciência, dessas em que a pessoa, tomada por um suor que faz grudar a camiseta nas costas, enfia o carro sem pestanejar no sofá e o diagnóstico do seguro é taxativo: perda total.

Segunda-feira, Dezembro 14, 2009

The end.

Dá sempre vontade de vomitar depois de tanto choro, e toda vez que eu vou embora é assim: um abraço estreito, a gente mistura risada com agonia e aborta flores. As tripas se reviram, a barriga dá revertério e me consolo porque sei que um dia volto.

Fico minguada por uma semana, de luto, só visto calças e tênis escuros, nenhuma renda pra amenizar. Então um dia faz sol, visto sedas de novo e retomo meu lugar.

Mas agora não: esta é a última vez que te abandono, daqui sigo pra tão longe que não haja bilhete de volta, cheiro de lavanda, estampa de flor. Esta é a última vez que te abandono, porque pensei muito e não posso continuar te abandonando, não quero mais me suicidar.

Terça-feira, Dezembro 08, 2009

Peanuts


Domingo, Novembro 29, 2009

Carta a R.

Coração,

Prometi que te escreveria essa semana. Eu sei, nunca te contei sobre tal promessa, mas é que ando fazendo anotações mentais e em post-its de coisas que queria dividir. São bobagens. E pequenas. São nada, na verdade, só uma desculpa pra pegar na caneta, preencher o vazio de mais de oito dias sem ocupar qualquer folha do caderno, imaginar que estou mais próxima de você, confessar saudades um pouco idiotas.

Começou essa vontade de te escrever num dia que choveu descompassadamente, e em que eu não carregava guarda-chuva, e me abriguei no Real Gabinete Português de Leitura. Foi o primeiro post-it, espécie de resolução antecipada de ano-novo: entrar, ao menos todos os dias, no Real Gabinete Português de Leitura. Você precisa dessas coisas, às vezes? Tenho uma sensação de que esses improvisos me salvam de morrer todos os dias. Como levar o biquíni dentro da bolsa e passar o dia pensando no mergulho tardio no mar. Como devorar cachorros-quentes em dia de semana na casa da Carol, e cantarolar Fito Paez entre uma dentada e outra. Como encarar o trajeto do Centro a pé e entrar em todas as lojas de discos. Como, na ânsia de me desapegar de tantas coisas, deletar minha conta no twitter.

Como as legendas que você escreve para essas fotos que são tão tuas.

O segundo post-it não é resolução de nada. E nem os outros. São pedaços de nem sei o quê. Autores que me fizeram amar na última semana, pequenas queixas de uma discreta dor no tornozelo direito, indagações esquemáticas e indícios de pânico: até quando conseguirei carregar tantas sacolas? E se o carro sucumbir antes do tempo? Como faz pra se vestir nesse calor? E se sentar alguém esquisito ao meu lado no metrô? E depois que esse ano passar, faço o quê?

Nem planos, nem idéias, nem fugas. Quando 2010 chegar eu ainda vou estar assim, óculos vermelho, cabelo bicolor, ligeiramente bêbada tentando te convencer de que a gente pode fazer alguma coisa diferente, procurando no cd do carro uma música que você goste, arquitetando consolos vãos, evitando tuas mordidas embriagadas.

E procurando esses abrigos, que estão no cheiro de livros acumulados e mofados, na platéia de uma peça de teatro repleta de crianças hipnotizadas por tudo o que acontece no palco, nas tuas mensagens nonsense, que leio no celular ao acordar.

Acho que ando te entendendo tanto que me pego até sem saber como concordar: fica parecendo imitação.

E pensar que já quis te matar mais de uma vez...

Marcelo disse que você fala muito em mim. Acho que eu tenho falado muito em você também. Deve ser porque nos ganhamos de outro jeito esse ano, e porque ficamos sólidos, mais do que a gente poderia adivinhar.

E as saudades um pouco idiotas... Umas incorrigíveis, outras angustiadas, e essa que você já deve imaginar: uma tarde na praia. Mesmo que eu tenha que pagar seu mate.

Topas?

Um beijo,

Quinta-feira, Novembro 26, 2009

Auto-propaganda

Eu virei chefe de reportagem da DengueMag e ninguém nem me contou. Aparentemente, tenho até um email: "redacao@..." , mas não sei qual é a senha. Talvez seja por isso que esse blog ande a passos lentos: meu novo cargo está me deixando louca.


:: You're asking me will my love grow. I don't know, I don't know. You stick around now it may show. I don't know, I don't know. The Beatles em Something.

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

They promised us truth

- “A penny for your thoughts”. É a expressão em inglês. Primeira frase de “Miracle”, do Bon Jovi.
- Mas não é tão boa quanto querer ser uma mosquinha no lugar errado.
- De fato não é. Mas a mosquinha, no fim das contas, também não consegue ler os pensamentos dos outros. Não é esse o foco?
- O foco é o quanto as pessoas mudariam a opinião delas sobre nós, se pudessem saber essas coisas, esses pensamentos automáticos sem repreensão ou julgamento. Pensamentos anárquicos. Acho que isso define.
- Sim. Mudariam.
- Quanto?
- Acho que muito.
- Então você diria que está atuando sempre? Que está o tempo todo podando o que vai dizer? Sem dar voz a esses pensamentos anárquicos?
- Hum.
- Desenvolva.
- Estou indecisa: acho que o primeiro pensamento é sempre anárquico. Digo: a primeira reação, de um modo geral. Depois é que vem a ponderação, a análise, os prós e contras. E então o primeiro pensamento já muda. Ou evolui.
- Entendo. Eu me pergunto pra onde será que vão essas coisas que a gente pensa e não diz. E fico curiosa, tentando adivinhar reações, prevendo o que aconteceria se a gente falasse mesmo logo essas primeiras palavras que vem à mente. Pensando que seria bacana dar margem a esses impulsos.
- Não seria um pouco selvagem?
- Talvez. Certamente seria menos Freudiano, no sentido de que seria tudo menos a-na-li-sa-do, menos estudado, menos mentiroso. Eu sinto falta da espontaneidade.
- Sim. Mas eu diria que você é das pessoas mais espontâneas que encontrei.
- Por que?
- Por causa de respostas como "putz, não, ele atrapalha qualquer suruba".
- Mas aí não era anarquia. Era álcool. Será que isso ajuda?-
- Pode ser. Ou um pouco de surrealismo. No sentido literal mesmo.
- Miró, Dalí, Breton? Essa gente?
- É. Era o que eles queriam, não era? Uma arte automática, do inconsciente? Tinham lá seus métodos, uns menos ortodoxos que os outros.
- Sim. Mas será que a gente pode voltar pra nossa gente? Será que a gente pode manter uma linha de pensamento mais Baixo Gávea, por exemplo?
- Claro. Foco. Baixo Gávea, por exemplo (...) Eu seria interditada no Baixo Gávea, por exemplo.
- O Baixo Gávea é um celeiro de pensamentos anarquistas mesmo. Uma média de 3 por cada pessoa que a gente encontra. Muita gente, né? Mas enfim. Você está pensando no que agora?
- Em nada anárquico. E também se fosse, eu não ia revelar.
- Eu acho que revelaria. Se fosse uma anarquia confessável. Ainda mais sabendo que eu não sou reacionária. Às vezes eu confesso essas anarquias mais brandas. Mas o que eu queria mesmo era saber as alheias.
- Mas as alheias de gente aleatória? Ou as dos nosso amigos? Da nossa gente baixo-gavista?
- Da nossa gente. Eu costumo perguntar.
- Elas respondem?
- Elas disfarçam. Minha mãe sempre pergunta no que estou pensando. O facebook também. Há há. Eu tenho vontade de ser sincera. Mas sempre acho que a pergunta é retórica. Ou mais pra preencher silêncio.
- Você pode responder está pensando na morte da bezerra. Ou pode cantar uma música “eu estou pensando em você, pensando em nunca mais te esquecer”. Ou pode dizer que pensa no Haiti. Outro dia eu quase respondi assim.
- É uma boa resposta pra acabar com qualquer conversa, né? A não ser que o interlocutor seja, sei lá, o André Lobato.
- Ééééé... Na verdade foi uma mensagem que chegou: “penso em você”.
- A gente sempre acaba falando de amor, né?
- E tem coisa mais anárquica que isso?